Há décadas, a Índia enfrenta uma contradição difícil de justificar: apesar de existir ciência para prevenir o câncer do colo do útero, as mortes continuam acontecendo. O país chega a registrar anualmente quase 80 mil mortes de mulheres devido a essa doença. Entretanto, o câncer de colo de útero é lento, detectável e amplamente prevenível. O problema parece ser uma falha na execução oportuna da prevenção, muito mais do que uma lacuna no conhecimento biomédico.

    Na decisão do orçamento da União para 2026–27, a Índia se comprometeu a implementar o vírus do papiloma humano (HPV) para adolescentes, afirmando assim que a prevenção do câncer cervical é uma prioridade política. Após anos de deliberação, endosso técnico e projetos-piloto incrementais, a prevenção passou de um consenso consultivo para uma intenção executiva. O governo da União espera lançar este mês uma campanha especial de vacinação contra o HPV em todo o país para meninas de 14 anos, visando combater o câncer do colo do útero.

    A proposta é usar a vacina quadrivalente contra o HPV, que protege contra os tipos 16 e 18 do HPV, responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer cervical no mundo, bem como os tipos 6 e 11, que causam verrugas genitais. Ao mirar em meninas adolescentes antes da exposição ao vírus, a intervenção interrompe a infecção em seu estágio mais precoce, evitando a transformação celular que precede a mortalidade por câncer.

    Ao falar sobre a necessidade de repetir o sucesso da vacinação em grande escala como ocorreu na Austrália e em Ruanda, é mencionado também que é preciso mais do que apenas conscientização para vencer o câncer cervical. É necessário um sistema contínuo que inclua vacinação, rastreio, diagnóstico e tratamento. Até hoje, em partes da Índia, mulheres que testam positivo ainda encontram encaminhamentos atrasados, capacidade patológica limitada e acompanhamento inconstante. Um sistema que detecta doenças sem garantir atendimento oportuno corre o risco de corroer a confiança do público, particularmente entre as mulheres que já enfrentam restrições de mobilidade, encargos de cuidado e autoridade de decisão desigual.

    Para vencer essa batalha, a vacinação deve ser institucionalizada dentro do Programa de Imunização Universal da Índia, com financiamento assegurado, continuidade de fornecimento, monitoramento transparente e fortalecimento paralelo das vias de rastreio e tratamento. Se a implementação da vacina permanecer esporádica e a campanha operar sem continuidade, a curva epidemiológica se dobrará lentamente, se é que dobrará.

    A OMS já demonstrou que a eliminação da doença é matematicamente viável. Vários países estão se aproximando do limiar de eliminação definido. A Índia possui a capacidade científica, a base de fabricação doméstica e a experiência programática para se juntar a eles. O que resta é encontrar coerência e consistência.

    O alerta final é que a eliminação do câncer cervical não é uma metáfora, mas uma escolha. E a história irá registrar qual escolha fizemos.