Crítica: Criadas revela racismo nas relações familiares

Durante muito tempo, no Brasil houve uma ideia coletiva de que aqui não havia racismo. Mas há, sempre houve. Porém, apenas há poucos anos que a sociedade, como um todo, assumiu a existência desse crime e passou a falar mais abertamente sobre o tema, com criação e implementação de diversas leis para impedir esse crime, criação de editais que visam fazer reparação histórica às pessoas que sofreram as consequências do período colonial, etc. Mas e quando o racismo estrutura – e adoece – as relações familiares, será que é fácil de enxergar, e de impedir? Esse é um dos pontos centrais do longa ‘Criadas’, filme brasileiro atualmente em cartaz nos cinemas.
Sandra (Mawusi Tulani, de ‘Tinnitus’) está de volta à casa onde crescera. Apesar das dores, das memórias e das sensações que o ambiente trazem a ela, Sandra está ali para buscar uma foto de sua falecida mãe, que trabalhara como empregada doméstica ali. Porém, quem mora ali atualmente é Mariana (Ana Flávia Cavalcanti, de ‘Continente’), sua prima, que agora está sozinha no imóvel após sua própria mãe ter saído dali. Num primeiro momento, o reencontro entre Sandra e Mariana traz uma nostalgia gostosa, das brincadeiras dos tempos de infância. Em nome desse passado compartilhado, Sandra, hoje uma chef de cozinha, convida Mariana a morar com ela ali, uma vez que está hoje é engenheira e está em busca de uma locação. Porém, o que inicialmente pareceu uma boa ideia rapidamente faz vir à superfície traumas não resolvidos que as aparências não conseguem mais disfarçar.
Exibido primeiramente no Festival do Rio e na Mostra de Cinema de São Paulo no ano passado, ‘Criadas’ é exatamente o tipo de filme que muitas vezes a gente vê num festival, mas depois desaparece na seara do tempo. Felizmente neste caso a produção não só ganhou distribuição, como também emplacou seu lançamento em circuito comercial, favorecendo que a mensagem e o debate proposto pelo filme alcançassem o grande público.
Escrito e dirigido por Carol Rodrigues (que escreveu e dirigiu alguns episódios de famosas séries), o longa, já em seus primeiros instantes, não se furta em mostrar explicitamente suas influências e inspirações, fazendo a câmera passear por uma prateleira de livros antirracistas e contracoloniais, cujos pensamentos, para quem os leu, podem ser ouvidos ecoando tanto nas falas das personagens quanto nos embates vividos por elas ao longo dos cento e quarenta minutos de duração.
É seguro afirmar que ‘Criadas’ é uma importante ferramenta para exemplificar e levantar o debate principalmente sobre como o racismo entra nas casas, nas microssociedades familiar, e não só influencia na formação das relações interpessoais como também ajuda a adoecer as pessoas envolvidas. E no filme fica claro que muito mais do que um ato de racismo explícito, é o racismo velado, silencioso, que acaba por magoar e transformar uma pessoa. Em ‘Criadas’ o centro do debate é a forma como Sandra e sua mãe foram consideradas como “parte da família”, sendo sempre chamadas para as festividades (mas para limpar e cozinhar), dormindo no quarto dos fundos junto com as vassouras e, assim como a motivação da protagonista Sandra, sem, no final das contas, ter sequer um registro fotográfico desse dito acolhimento familiar. Tudo isso sem carregar no drama.
Embora fique claro que o orçamento apertado possivelmente implicou em escolhas na produção, ‘Criadas’ mostra que a vontade de fazer a mensagem chegar ao grande público é maior do que preciosismo estético. Um filme corajoso que se faz gritar dentre as grades de exibição e que, por sua linguagem didática e explicativa, deveria ser assistido principalmente nas escolas, para fins de fomentar uma educação antirracista.